sexta-feira, 18 de março de 2011

Obrigado, por nada. - 1ª parte

 

Não posso me culpar por não ter entendido o primeiro pedido de socorro que recebi na vida. Eu tinha talvez 16 anos, ela mais que  o dobro, amiga da família, profissional, formada, responsável, com manias místicas e buscas sem-fim por conhecimentos ocultos, que hoje eu sei, eram uma forma de criar aos olhos dos outros e para si própria uma áura de poderes ocultos, saberes e forças - superioridade frente às coisas mundanas - que não possuía. Estava de passagem pela cidade, dormiria no apartamento da sua amiga, minha mãe.

Foi apenas uma frase, uma pequena brincadeira de boa-noite que eu fiz, (“Olha lá hein? Se for fugir mais tarde para a farra, leva a chave!”) mas que obteve na resposta (“Mas eu  nunca faço nada!”)um tom tão agudo e angustiado, um uivo não-pronunciado, um lamento. Jamais havia captado tanta carga emocional numa frase só, nem nunca mais captei. Estavam presentes em cada uma das poucas palavras o desespero, a angústia, repressão, revolta, desejos e mordaças – o som de alguém que se debate. No momento não distingui tudo isto, mas o alarme soou, sabia que havia alguma coisa bem mais forte do que apenas palavras ali, e me senti  intruso, estranho, como vislumbrar por uma porta entreaberta alguém chorando numa casa em festa. Tanto quanto implorar por socorro aquilo era um convite. Ela precisava fazer algo condenável, punível, queria o tesão do proibido, gozar com a própria baixeza, ter algo de vergonhoso para esconder dos outros. E a culpa, mais do que tudo a culpa. Uma culpa nova, diferente daquela que sentia todos os dias por fazer tudo certinho e sem surpresas e que tinha gosto de cera de vela. Esta culpa era por finalmente ser autora de algo,  por ter se sentido viva, e gostado. Por conseguir amordaçar por breves instantes a sempre presente voz da própria mãe na memória, ditando as regras, fiscalizando e reprovando tudo em sua vida, nunca satisfeita com o resultado. Eu não sabia, o tempo me contou. No momento, o desconforto de sentir o peso daqueles sentimentos não-interpretados me afastou. Demorei a dormir, sem identificar o que me perturbava. Tenho certeza de que a porta do seu quarto ficou entreaberta naquela noite.

sábado, 10 de julho de 2010

Atualizações um Pouco Atrasadas

 

Salve gurizada percadora! Faz tempo que não coloco alguma atualização da vida deste “índio incréu” que vos tecla, então lá vai:

Solteiro – já faz um tempinho, desde o final de janeiro. Quis o Destino, este péssimo roteirista, que o namoro com a Queli tivesse um fim – a distância é um obstáculo muito complicado. Fica uma baita amizade e excelentes lembranças: Valeu Nega, sabes que sou teu fã!

Canela – Vim morar na Serra, estou aqui desde o mês de março. Já havia passado da hora de me tocar de Porto Alegre, eu mesmo não aguentava mais me ouvir reclamando da eterna sujeira e má conservação das ruas, da piada que chamam de trânsito e acima de tudo a insegurança permanente. Pior administração municipal que já vi no Brasil. A gota d’água foi um tiroteio em plena Redenção, num domingo, às 3 da tarde, quando por menos de 20 passos não fiquei com a Bug e o Gabriel (sobrinho) em frente aos atiradores. Dei um basta. Já que não poderia fazer nada para mudar a situação a curto prazo, o incomodado aqui se retirou. Uma das mais acertadas decisões que já tomei, a cidade de Canela é uma espécie de paraíso com geada e café colonial!

Camila – Dia 25 de junho saí rumo à Rondônia, para buscar a Bug para passar todo o mês de julho e um pedaço de agosto comigo. Não via a hora de abraçar este pacotinho de gente, que é o centro de mim. Chegamos no Rio Grande dia 30, não anunciamos à imprensa para não gerar tumulto no aeroporto e viemos direto para Canela. Além da Serra, ainda passaremos uns dias na Campanha, em Bagé, curtindo o frio que ambos gostamos tanto.

Cigarro – Me livrei, bem mais facilmente do que da primeira vez. Alguns poucos dias de angústia e mau humor, estoicamente suportados pelos que me cercam, e pronto.

Trabalho – Passei em 5º lugar no concurso do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, para Técnico Administrativo de Nível Superior (Yeah baby, yeah!!!!!). Como eram 8 vagas, estou esperando ser nomeado em breve, torcendo para ir para Bento Gonçalves ou Feliz, as outras possibilidades são Porto Alegre e Canoas. Ainda não acredito direito nesta história de ter sido aprovado, só dei uma estudada (um pouco matada) 5 dias antes da prova, tem horas que me sinto meio culpado, parece que deveria ter sofrido para merecer passar… É do senso comum o ritual obrigatório de passar anos a fio estudando, “ralando”, “se preparando”, acordando cedo, cumprindo horários rígidos de estudo, levando uma vida monástica com alimentação frugal, meditação e penitência, para só então transcender a matéria e receber a iluminação necessária para enxergar as letrinhas com as opções corretas brilhando na sagrada Folha de Respostas… Enquanto que “eu, tantas vezes vil”, acho que até ingeri carne gorda e cerveja na noite anterior à prova. Heresia! Bom, o fato é que  passei e pronto.  Agora que descobri que consigo, pretendo prestar concurso sempre que der. Estou terminando um texto sobre o meu TDA, mas posso gritar de antemão: “Zeus e Atenas abençôem a Ritalina!!!” (maiores explicações no próximo post). Sem ela não teria conseguido passar no concurso nem abaixo de pelegaço.

Por hoje é isto o que a casa oferece, perdôem a total falta de estilo e desenvoltura, sei que ficou direto demais, tosco, cru. Ultimamente tenho escrito, e até agido assim mesmo. Mas não se preocupem, é fase, uma hora eu volto a escrever de verdade!

Um baita abraço a todos!!!

sábado, 22 de maio de 2010

MEA CULPA!!!

Caríssimos e Fiéis Percadores,

Quero assumir de joelhos, publicamente e com o lombo riscado a mangaço: sem querer apaguei todos os comentários do Menas Perca!!!

Estava cansado de excluir os spams que recebia o tempo inteiro e resolvi achar uma forma de restringir comentários anônimos... Sabe-se lá a besteira que fiz, mas acabei apagando tudo.

Por favor, não deixem de postar, não apenas gosto como preciso das opiniões de vocês!

Um baita abraço,

Bláh.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Qual das duas? ou Reticências Infinitas

 

Não sei qual me facina mais.
Se a menina bonita com um sorriso claro que ilumina os meus momentos de maior pressão ou a mulher que cochicha coisas ao telefone que me afogam e me fazem parar o carro para tomar ar.
Se a fadinha boa que, com toda a candura do mundo me faz rir  com uma de suas sacadas geniais ou a esfinge que manda mil bruxinhas más machucarem meu peito, fazendo pensar coisas.
Se a frágil amiga que pede ajuda entre soluços num momento difícil e nos torna irrecuperavelmente íntimos ou a fêmea-centaura que me deixa tonto com o cheiro-fêmeo-gargalhante que exala por todos os poros e que desfila sabendo-se observada-desejada-admirada.
A pessoa inteligentíssima que dá um banho de literatura em qualquer douto-filho-da-puta que apareça dizendo-se grande coisa ou esta visão que remete a anjos caídos por vontade própria.

Sei que gosto mais da primeira.

E a segunda me enlouquece.

Mini-conto da Mulher Obcecada

 

Hoje ela entrou na minha sala com um olhar de quem tem sede, fome, fúria. Passou por todas as mesas sem cuprimentar ninguém, nem mesmo desviou o olhar de mim. Fez a volta em minha mesa rápido como se fosse partir para uma briga e, num puxão de cabelos que dói até agora, me deu um beijo simplesmente obsceno, molhado, desesperado. Depois, ofegante como se acabasse de tomar um copo d'água há muito esperado, secou os lábios nas costas da mão, borrando ainda mais o batom, e saiu caminhando reto, altiva, novamente sem parecer notar nenhuma das caras espantadas à sua volta.
Saiu com um meio-sorriso irônico, debochado, sem-vergonha.
Adorei.
Acho que vou perder o emprego.

domingo, 9 de maio de 2010

Água de Roma

Dia destes ouvi uma história sobre Roma, contada pela minha irmã, não tenho confirmação histórica. Numa busca rápida pela internet não encontrei base sólida, mas não importa - o gancho vem a calhar para o assunto seguinte, que também me foi informado pela Márcia.

Lá vai:

Roma - 2.300 anos atrás.

O sistema de distribuição da água em Roma obedecia um critério interessante - transportada pelos aquedutos, era posteriormente tratada e decantada, para ser estocada em tanques de distribuição com duas saídas, uma num nível pouco mais acima da outra. Uma das saídas fornecia água para as famílias da elite, e a outra para o restante da população. Imediatamente se pensa "o acesso mais alto era o da elite, por conter menos resíduos", e era assim mesmo, só que por um motivo muito diferente e bem mais legal.

O senador que implantou o sistema era um grande conhecedor da natureza humana - a água da elite não era mais pura que a da plebe, já que recebia o mesmo tratamento, mas era a primeira a acabar em caso de seca ou má-conservação do sistema. Foi a forma de garantir que não faltariam verbas para a manutenção, e que se terminasse a água para o povo os gestores poderiam alegar que a coisa estava feia para todo mundo mesmo, que também estavam sem banho, inclusive há mais tempo que todos, ganhando assim alguma simpatia popular e tempo para o conserto ou até seca terminar.

Corta para:

Brasil - época atual.

O Senador Cristovam Buarque (PDT-DF) é autor do Projeto de Lei nº480 de 2007, que tem a genialidade das idéias simples e a simplicidade das idéias geniais. Ele "determina a obrigatoriedade de os agentes públicos eleitos matricularem seus filhos e demais dependentes em escolas públicas até 2014". Imaginem só: com os filhos de apenas 64.810 políticos das esferas federal, estaduais, municipais e do Distrito Federal sendo obrigados a estudar em escolas públicas, a Educação no Brasil, para 150.000.000 (faço questão de escrever por extenso: cento e cinquenta milhões de brasileiros) nunca mais teria problemas como falta de professores, greves e todas aquelas falhas ridículas e patéticas que estamos cansados de aguentar. É a versão brasileira para a "Água de Roma"! Se por um lado a aprovação desta Lei admitirá a falta de atenção da classe responsável até então, por outro utilizará de forma honesta a tendência natural do ser humano em cuidar apenas dos interesses próprios e próximos, para fazer algo realmente bom e justo, no mais puro sentido dos dois termos, de um jeito realista e maduro.

O antigo relator, Sen. Romeu Tuma votou contra, mas tivemos a sorte dele sair da CCJ (Comissão de Justiça e Cidadania), sendo a matéria redistribuída ao novo Relator, Sen. Antonio Carlos Valadares, que tem junto com o Sen. Buarque a oportunidade de entrar para a parte limpa da História do Brasil. Por enquanto o relator pediu prazo para que a matéria seja "instruída em data oportuna".

Tudo bem, todos sabem que sou um baita cínico, um idealista que entregou os pontos, não tenho a menor esperança de que tal utopia seja aprovada, mas gosto de imaginar as possíveis consequências em um prazo de, digamos, 15 anos, com os índices de Educação nas alturas e o Brasil sendo usado como um grande exemplo positivo para o mundo.

Já pensou?

Eu já.

sábado, 8 de maio de 2010

Perfil

Fiéis Percadores, ainda tenhos uns três textos mais antigos por terminar, bem superiores a este, que nada mais é do que o perfil do orkut, que resolvi editar, e que acabou maior do que podia caber lá. Transcrevo aqui na íntegra, só para não perder o que curti escrever. Ainda devo um texto bem mais profundo e emocionado para minha amiga Renata Bezerra (http://tantosdias.blogspot.com/), que ainda não faz idéia do efeito que o texto dela a meu respeito fez na minha vida. Espero postá-lo em breve.

“Um novelo de idéias geniais e inacabadas. Com uma imaginação absurdamente ativa, totalmente assombrado com este "espetáculo cheio de som e fúria", escrito por acaso, ainda buscando seu papel.

Vivo pensando em coisas interessantes, inteligentes e criativas para escrever neste espaço, e é claro que chega a hora e as tais coisas se escondem...

Imagino que, como quase todo mundo, eu seja normal à superfície. Lógico que algumas coisas me diferem do todo, pequenos detalhes, raciocínios, circunstâncias que me tornam o que sou hoje. Tenho o pensamento inquieto, por trás de uma geralmente calma expressão bonachona, semi-sorridente, com uma sobrancelha sempre meio levantada por anos de exercício de ironia. Radicalmente me cobro o tempo inteiro sobre pequenas e grandes atitudes que tomo, se agi com ética e honradez, coisas que já eram um tanto românticas e sonhadoras quando foram inventadas, eu sei, mas é assim que me posto frente ao mundo, talvez por pura implicância. O fato é que não vejo mais os meus defeitos com simpatia, como todos tendem a fazê-lo. Às vezes tenho uma queda por certas causas perdidas, talvez por que a noção estética de um gaúcho peitudo enfrentando o universo me seja atraente, heróica, mas não confunda: não tenho vocação para mártir nem sou ativista de coisa nenhuma, acho bom que exista gente assim, mas não é a minha praia, e prefiro que não batam à minha porta, não sei trabalhar em grupo.

Tento ser um bom pai, o mais presente possível na vida da minha filha, sem forçar a barra. Espero que futuramente ela compreenda e perdôe os meus defeitos, para nunca me tornar um super-pai na imaginação e assim viver me procurando em relacionamentos impossíveis e frustrantes. Torço para que os meus defeitos não sejam muitos nem grandes demais, para que ela também não nivele muito por baixo. Acho que ser pai é o melhor e maior sentimento angustiante que alguém pode sentir, é como um outro coração batendo fora do teu peito, sem que tenhas muito o que fazer para protegê-lo, a não ser absorver e se perder no sentimento arrebatador de amor que ele traz.

Sei que a capacidade humana de se superar é infinita, tanto para o bem quanto para o mal. Confio na ciência como ferramenta de crescimento e única luz num "mundo assombrado por demônios", desde que sempre muito bem temperada com ética.

Procuro fazer o bem no anonimato, primeiro por que sei que a gratidão pode ser um grande peso para quem recebe a caridade, segundo por que é uma boa forma de manter a minha vaidade sob controle. Me cobro o exercício de ter virtudes e praticá-las não por esperar uma recompensa, mas por que é o certo a ser feito, e isto basta. Tampouco evito realizar maus atos por temor de um castigo eterno ou coisa parecida. Apenas os evito por que não são corretos. Possuo um imenso respeito reverente pela natureza, pelo universo, tenho plena consciência de minha finitude e insignificância frente ao todo. Impossível olhar para um céu estrelado e não me sentir humilde e maravilhado.

Sou ateu, por que para mim basta que um jardim seja belo, não preciso imaginar que existam fadas escondidas nele, não necessito que existam deuses por trás dos fenômenos, eles já são belos por natureza, sem trocadilhos. Não nego a utilidade da religiosidade apenas num ponto - o de consolo no momento em que se perde alguém amado. O que não a torna verdadeira, apenas bastante útil e confortadora. Tentei muito ter fé, por muito tempo me senti culpado por não conseguir - para isto sempre tive pouca complacência de imaginação e muita noção de realidade, os deuses dos homens possuem mais defeitos que os próprios homens. Até que um dia concluí que não precisava procurar, eles não estariam lá. Muito pior do que a noção de religiosidade, que traz um pouco de atraso e é fácil de ser explicada, é a sua forma doentia: a religião (estabelecida, regrada, instituída). Apóio a noção que as religiões são infecções de idéias, os chamados "memes", que contaminam os humanos desde a infância (quando são mais vulneráveis), sempre procurando atingir o máximo de contágio possível, exatamente como um virus. Seus reflexos mais óbvios são as justificativas para dar vazão aos sentimentos mais primitivos de "exterminar os de fora da tribo", além de graves distorções hiperdimensionadas de amor ao próprio ego e à imagem ultra-idealizada dos pais (desculpa os termos meio ridículos, mas foi o jeito mais curto que encontrei de colocar a coisa). Espero sinceramente que um dia elas se tornem apenas material de estudo histórico, para quem gostar de mitologia, quando a humanidade atingir maturidade suficiente. Não costumo levantar bandeiras com relação a este ponto, mas também não fujo de um bom bate-papo entre amigos, desde que ninguém queira converter ninguém com argumentos emocionais e todos tenham senso de humor suficiente para rirem de si próprios.

No mais, muita leitura, humor refinado, cozinhar para os amigos, beber bem acompanhado, cultura gaúcha, algumas (poucas) séries e programas de tv, uma pitada de boa música e por aí vai.

E aí, vai encarar?

Abraços! “

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Um retrato do meu hoje

Caríssimos percadores, quantas saudades!!!

Peço perdão pela demora tão grande em postar algum texto por aqui, mas passei por um enorme hiato criativo, "travei" no meio de uma história da série "Causos" e, pelo menos da última vez que li, o texto continuava inacabado. Prometo que os "Causos" não serão "série de um causo só", mas ando pensando e tendo outras idéias para expor á pedrada dos amigos, e vou escrevendo o que der vontade, só pelo prazer de escrever.
2009 foi um ano recheado de mudanças na minha vida, comecei aos trancos, perdendo o emprego, fazendo uma bem dolorida e incômoda cirurgia (nada grave, apendicite, só que infeccionou o talho e fiquei um mês vendo meu Eu Interior...), e me divorciando. (Credo! Ficou parecendo enredo de novela mexicana!). Tive a Camila morando comigo durante alguns meses, até o final de julho, depois foi para Porto Velho e voltará em dezembro, talvez eu consiga ir buscá-la, ou venha com os dindos Fernando e Viviani no dia 17 de dezembro.
Com relação ao emprego, continuo como "Analista de Situação", ou seja, fazendo absolutamente bosta nenhuma a não ser lendo classificados e despachando e-mails com curriculum para tudo quanto é lado. Também tenho algumas idéias de possíveis negócios próprios, mas como tudo depende de vender a casa de PVH, vou fazendo cursos no Sebrae e analisando as possibilidades melhores.
No campo sentimental, a separação foi até muito tranquila, não "voaram objetos" na cabeça de ninguém, falo muito seguidamente com a Simone e, como foi uma coisa bem de comum acordo, sem maiores dramas. Num primeiro momento a intenção foi da Camila ficar comigo, mas sei e sempre afirmei que a figura da mãe é extremamente necessária nesta primeira infância, nossa amada "Bug" ficará morando com a mãe por tempo indeterminado, e eu me desdobrando para ser presente na vida dela o máximo possível, como um pai deve ser.
Atualmente namoro a Queli, uma pessoa fantástica, que conheci da forma mais inesperada do mundo, via Orkut, acreditem se quiser. Mora em Porto Velho (claro que eu não poderia arrumar uma namorada aqui por perto, se fosse fácil não teria graça!), já passou quase um mês aqui comigo e se depender de mim passará os próximos 817 anos ao meu lado, de preferência no Rio Grande mesmo.
Li muito, reencontrei amigos perdidos, fiz novos, redescobri antigos hábitos, inventei novos defeitos, engordei, perdi peso, engordei de novo e, apavorado com a possibilidade de atingir os 3 dígitos na balança (cheguei aos 99kg!!!) estou emagrecendo de novo, antes que comece a desenvolver força gravitacional; voltei a fumar, parei, voltei de novo e estou com data para terminar de vez minha ligação com a Dona Nicotina (antes de ter a Bug por perto!!!). Aprendi muito, principalmente sobre mim mesmo, gostei de algumas coisas, estou peleando com outras que detesto, para ser alguém melhor.
É isto meus amigos, perdôem o estilo nada parecido com os textos inúmeras vezes revisados que já havia postado, vou terminar e postar direto, cru, sem alterar nada, para evitar de guardá-lo por um tempo indefinido e se tornar ultrapassado, anacrônico.

Grande Abraço a todos!!!

quarta-feira, 18 de março de 2009

Só um Adendo no meio da série Causos:

Precisava postar esta frase:

"Blog não passa de um meio de publicação. O autor do blog, dono e soberano do blog, faz o que bem entender com seu blog. Não existe literatura de blog. Não existe escritor de blog. Blogueiro não é escritor. Escritor não é blogueiro. Não existe escritor de blog. Existe blog enquanto meio de publicação para um escritor. Escritor é escritor. Escritor não é blogueiro."
Clarah Averbuck (Escritora genial e uma das pioneiras no uso do Blog no Brasil)
Fonte: http://www.revistaogrito.com/page/23/06/2008/clarah-averbuck/

terça-feira, 17 de março de 2009

Série "Causos"

Amigos percadores, começo hoje uma série de causos interioranos, típicos do humor pampeano. Não são propriamente causos gauchescos, poderiam ter acontecido em qualquer cidadezinha do mundo, e é aí que reside seu maior encanto. São histórias ouvidas nos finais de semana na casa grande do meu clã materno, os Vargas de São Sepé, tomando um mate enquanto o churrasco se apronta pingando sem pressa nas brasas. O linguajar adotado será o mais informal possível, já que existem expressões no dialeto pampeano que são impagáveis, e o idioma faz parte do tempero da paisagem. Em algumas histórias menos gloriosas serei obrigado a alterar os nomes dos participantes, “por descrição e prá não ser capado”, como diria um analista, conterrâneo meu. Os contos urbanos ficarão um tempo em segundo plano, mas um dia voltam.
P.s.: Talvez a palavra “Nóca” não tenha acento, mas a avó é minha e eu boto acento onde eu quiser!

Introdução
Os sepeenses são, de longe, os melhores contadores de histórias que existem. Do Rio Grande e, por extensão, do meu mundo. Talvez seja o tamanho da cidade - cerca de vinte e poucos mil habitantes desde que me conheço por gente e daqui a duzentos anos ainda vai ter perto disto - o que torna todos os moradores, no mínimo, conhecidos. Outro fator determinante é o humor típico do local, herança de uma salada de influências culturais, por conta de ser situada exatamente no meio do estado (até o sotaque é diferente, lembrando, ainda que bem de longe, o caipira mineiro). Seus contadores têm aquele perfil do negro ou índio campeiro, calmo e silencioso, que ouvia as conversas dos brancos para depois narrar suas manias e esquisitices para a peonada no galpão entre uma risada e outra. Quem pede um causo prá alguém de lá esteja preparado para ouvir milhares. Imagina então uma roda de mate com vários parentes reunidos, alimentando as memórias uns dos outros, acrescentando detalhes, num ciclo que só se encerra para a hora da bóia e se bobear, depois da sesta, periga se estender até a janta. Então te abanca, senta no sofá ou no tapete mesmo (quer um pelego macio? Esteja à vontade!), e aceita um amargo, que já começou a aparecer história:
A Iconoclasta Vó Mercês

Pois contam que a Vó Mercês (minha tia-bisavó, se é que existe a palavra) foi a parteira quando a Tia Goga nasceu. Parto prematuro e complicado, demorou horas, até que nasceu a criança. Logo em seguida, num intervalo do choro fraquinho da nenê, todos ouviram uma coruja piar bem alto no lado de fora da casa. Prá quê?!? A D.Nóca, minha avó, entrou em pânico:
- Uma coruja piou, é mau-agouro! Ai meu Deus, a criança vai morrer! Minha filha vai morrer!
Desespero entre a mulherada, reza prá cá, terço prá lá, todo mundo ajoelhado se benzendo.
Mais que depressa a Vó Mercês levantou da cadeira onde estava se recuperando da longa peleia na qual fora comandante de tropa e, com o cenho franzido e sem tirar os olhos da D. Nóca, chamou pelo próprio filho, meio por cima do ombro:
- “José!!!”- gritou. O piá entrou voando, pois sabia que só entrava em quarto onde tinha gente nascendo ou morrendo se fosse para coisa urgente.
- “José, meu filho, me pega a espingarda, vai lá fora e me mata esta coruja! E depois traz aqui!” - O guri encheu o peito e saiu correndo mais rápido do que tinha entrado, antes que a mãe mudasse de idéia ou que os protestos das outras mulheres a fizessem voltar atrás.
A la pucha, dar tiro de espingarda! E em coisa viva ainda! Com o coração aos pulos achou a coruja sentada em um moirão da cerca perto da casa, virando a cabeça pros lados com um olhar bem sério, com cara de quem não acha graça de nada. Pois a vidente emplumada deu azar, o guri tinha pontaria. No primeiro tiro a infeliz se foi “prás cucuia”, deixando um punhado de penas ainda borboleteando no ar acima do moirão onde estivera acomodada.
Missão cumprida, correu o guri de volta, com sua presa em mãos. Antes de entrar no quarto, refrenou o passo, por conta do silêncio solene que se instalou na atmosfera depois de ouvido o tiro. Escondeu o sorriso com certa dificuldade e mostrou orgulhoso e ofegante o resultado de sua pontaria.
Disse a Vó Mercês em tom de desafio “Viu? Viu só!? Se este bicho burro soubesse prever mesmo alguma coisa tinha ficado bem quieto no canto dele para não levar chumbo!”.
Tá aí a Tia Goga para comprovar a lição, lépida e faceira, contando causos e fazendo todas as vontades dos sobrinhos mimados, inclusive as minhas, até hoje, e espero que por muitos e muitos anos mais!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Questões Teológicas

Você já parou para pensar que, se existe Deus, como deve ser terrível ser Deus? Como deve ser infeliz a vida de alguém que sabe tudo, pode tudo, está em todos os lugares. Não há desafios, surpresas, toda a história do universo está clara à sua frente, sem nenhuma alteração. Todos os fenômenos são conhecidos, nenhuma idéia pode ser original. Não poder se emocionar ou decepcionar com a raça humana ou qualquer outra, tudo está definido.
Prefiro pensar que, se existe um Deus, ele não é perfeito. A experiência (constatação de padrões através da repetição de fenômenos) tem me demonstrado isso. Ninguém que pode tudo deixaria uma “filha” ser estuprada, um “filho” passar fome, ou ficar imóvel vendo uma criança definhar com câncer, principalmente se ele é, como alardeiam os de algumas religiões, feito de Amor. Não, ele não pode ser perfeito, nem se importa tanto assim conosco. Se importasse, ligaria de vez em quando, deixaria recados claros da sua presença, não vagos “sinais” somente “interpretados” por pessoas que, geralmente, acabam tirando proveito disso.
Dizem os “sábios”: “As palavras de Deus, seus gestos e desígnios são complexos demais para a limitada mente humana”. Quem decidiu por mim que estes desígnios são complexos para meu diminuto cérebro? Posso dar pelo menos uma olhadinha no índice? Um ser inteligente saberia se fazer entender claramente, mesmo por criaturas estúpidas como os humanos, diminuindo-se como “o Oceano, que é grande por se colocar um pouco mais baixo do que todos os rios”.
Descartes dizia que a simples noção de perfeição na mente de seres imperfeitos como nós era o sinal claro de que Deus existia, como uma assinatura deixada pelo artista, por que para algo ser perfeito, necessariamente deveria existir, senão possuiria um defeito: o “não existir”. Penso que um ser perfeito não conseguiria criar algo imperfeito, mesmo que desejasse, como a maldição do toque de Midas, já que, num átimo temporal, necessitaria primeiramente pensar em algo perfeito, para logo após lhe acrescentar defeitos, reduzir suas capacidades, deixá-lo “humano”. Ora, se este algo perfeito foi criado ou pensado antes dos defeitos serem-lhe acrescentados, o algo necessariamente preveria a possibilidade de falhas e as anularia assim que fossem instaladas, impossibilitando a criação imperfeita por um ser perfeito.
A idéia de um ser embebido em Amor também não é das mais agradáveis. Se ele sente Amor, só pode ser por ele mesmo, já que tudo saiu dele. Narcisista, eternamente afundado no lago inebriante de sua paixão própria, parece a imagem de um drogado ou alcoólatra, chapado até a alma, auto-suficiente, embevecido com a beleza das alucinações na sua mente. Deve ser difícil mesmo escutar um pedido de ajuda de uma “filha”, ou “filho”, num estado desses.
Tampouco pode ser alguém empreendedor, pois as leis universais são auto-reguláveis, sendo desnecessária a revisão periódica, a reunião mensal, a definição de novos rumos, táticas para agradar aos clientes.Se ele existe, e possui raciocínio lógico, sua existência deve ser o seu martírio. Pensando assim (se assim for), acho que me atrevo a sentir pena de Deus. Será que ele deixa?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

ABSURDOS

Acabei de assistir na televisão uma coisa que fez a humanidade cair um pouco mais no meu conceito: um agricultor da Bahia se revolta contra o deputado que havia prometido instalar eletrificação rural na região do seu sítio e, vinte e cinco anos depois, resolve tomar uma medida drástica: muda seu voto! Que me perdoe o Código Penal, mas o ideal seria ir até a Assembléia Legislativa e dar uma surra de relho de cola de tatu no lombo do deputado, e depois no agricultor! Afinal, o que mais me indignou foi o fato de que só depois de VINTE E CINCO anos, o tal eleitor muda o seu voto. Na ponta do lápis: um deputado estadual tem um mandato de quatro anos, caso o digníssimo deputado tenha sempre se reelegido, o cara votou, no mínimo umas seis vezes no mentiroso!!!
Tive em Bagé, no curso de Direito, um professor que defendia a idéia de que, sob determinadas circunstâncias, a vítima era tão culpada quanto o criminoso. Ele citava o exemplo do cara que é assaltado ao passear por uma rua sabidamente mal freqüentada e pouco iluminada, contando uma quantia de dinheiro em voz alta. - Quer dizer, esse “tá pedindo!” - dizia o mestre. É o mesmo caso do eleitor que não confere o que o seu político faz com o dinheiro público, seja ele do legislativo ou executivo. Esse também “tá pedindo”.
De quem é a culpa? Do político que percebeu que, mesmo não cumprindo nada, sempre poderia contar com a eterna paciência do, no mínimo ingênuo (para não dizer otário), eleitor, ou é do “pobre votante” que viu a sua confiança desmoronar eleição após eleição após eleição após eleição após eleição após eleição(ufa!), por um período maior que um terço da vida média de um brasileiro? E a criatura sempre no escuro, até hoje sem luz em casa!
Dá até para fazer um filme sobre a corrupção na política como resultado da pasmaceira dos eleitores. A cena final seria linda: o Eleitor chocado com a falta de seriedade do Político se revolta e solta um grito de dor e fúria com os braços erguidos para o céu em meio a uma tempestade, (com a câmera dando um giro de 360o em torno do furioso, pegando detalhes do rosto alterado pela luz dos relâmpagos). Na seqüência, o Eleitor saindo com um sorriso confiante da urna eletrônica, achando que fez justiça um quarto de século depois.
Corta para o político recebendo a notícia, de um de seus entristecidos assessores de que não foi reeleito. Faz uma cara de quem diz “é, a vida é assim mesmo”, prepara as malas e vai viver em Miami com o dinheiro de vinte e cinco anos de desvio de verbas da eletrificação rural. Lindo não é?

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

PARA NOS ENTENDER UM POUCO - 2

O gaúcho tem a fama espalhada pelos quatro cantos do mundo de ser gritão, grosso e metido a macho, (inclusive daí vem a sátira oposta, a do gaúcho com toda a aparência de macho, mas completamente gay, figura que comento em outra crônica, ainda por terminar), mas sustento uma teoria de que não é bem assim.
Vejamos: quando passava as férias em São Sepé, nas conversas e brincadeiras com a “primalhada”, o pessoal dizia que eu falava muito alto, era muito estabanado, o mesmo ocorria com minha irmã Márcia. Foi quando percebi que realmente nos expressávamos alguns decibéis além do necessário e do suportável pelos tímpanos dos nossos primos. Atendíamos então às súplicas da turma e baixávamos o volume. Terminado o período de férias, ao voltarmos para Bagé estranhávamos como todos realmente falavam aos berros.
Anos depois, uma professora, cujo nome infelizmente não lembro, apresentou a interessante explicação para este fenômeno sonoro, sua teoria era de que o pessoal da fronteira falava desta forma por assimilação do tratamento militar à época da colonização daquela região do estado, em que o índio, o português e o espanhol muitas vezes criaram comunidades em torno dos acampamentos e quartéis militares, absorvendo o modo militar alto e claro, quase rude, de falar. Portanto, quem costuma realmente falar mais alto é somente o gaúcho fronteiriço, ainda assim, isto não se tornou obrigatoriamente uma regra.
Existem outras teorias, é claro, uma delas particularmente atraente é a de que na imensidão do pampa, para ouvirmos e sermos ouvidos, temos que falar alto devido às grandes distâncias. Outra diz que falamos assim porque só estamos acostumados a tratar com o gado, que não é um ser muito atento e compreensivo, bobagem, é claro. Infelizmente, acredito mais na primeira explicação, que apesar de ser menos romântica é a mais plausível.
Quanto à fama de grosso, de mal-educado, é um total absurdo, discordo totalmente. Só quem nunca foi a uma estância pode dizer que o gaúcho é grosseiro. Principalmente os peões, que são os mais puros representantes da cultura gaúcha, tratam de seguir rígidas regras de tratamento, algumas já caídas em desuso até nas mais tradicionais sociedades aristocráticas do Sul.
Nunca um peão entra num recinto fechado de chapéu, nem chama alguém por “Tu” sem ser íntimo da pessoa, nem jamais conta uma piada ou um chiste na frente de estranhos. Até mesmo entre os peões existem modos de tratamento que traduzem uma educação tosca em letras, porém rica em refinamentos e rituais sociais, um pouco distorcidos pelo tempo, absorvidos da antiga aristocracia rural. Chamar o decano entre os peões pelo tratamento respeitoso de “Tio”, referir-se sempre aos que já morreram pelo título de “finado” ou “saudoso” antes do nome são apenas alguns exemplos.
Um amigo disse-me certa vez: “Sou tradicionalista uma barbaridade, mas não me venham com grossura que eu salto fora! Chamo todo mundo por senhor e peço licença antes de entrar até em chiqueiro de porco”.
Aqueles que criam a fama de grosso do gaúcho são geralmente jovens de classe média alta que se caracterizam de campeiros sem, no entanto, conhecerem a cultura gaúcha, aproveitando as belas festas realizadas para darem mostras de sua fraca compreensão, criando arruaça e “gritedos”, enfim, fazendo fiasco, simplesmente achando no movimento tradicionalista um bom modo de chamar a atenção, um modismo passageiro em que o “modista” passa, mas a fama negativa fica.
Quanto à terceira afirmativa, de que o gaúcho é metido a macho, que me desculpem os muito delicados, mas é a mais pura verdade.Não se trata de bairrismo ou ufanismo. Apesar de civilizado, ele ainda carrega aquela raiva fria que herdou dos terríveis colonizadores espanhóis, famosos por suas atrocidades com os inimigos, fossem eles índios, portugueses ou quaisquer outros. Esta energia bruta tem seu lado positivo ao ser transformada em fonte de inspiração para o trabalho, é reservatório inesgotável de energia, porém, se despertada para a “peleia”, é capaz de atos bárbaros e desumanos como nos contam as histórias das degolas nas muitas revoluções e guerras pelas quais passou aquele estado, em que degoladores como Adão Latorre são até hoje lembrados e muitas vezes reverenciados.
Que fique como exemplo o caso da avó do Luciano, amigo meu. A velhinha deve ter uns oitenta anos, encolhidinha e de fala lenta e calma como uma avó deve ter. Pois a velhinha estava falando mal de um vizinho da estância da família, homem de má índole e mau caráter, e surpreendeu a todos na sala quando veio com esta sentença, com a calma de quem explica um ponto de tricô: “Aquele lá, meu filho, tem que pegar e arrancar o olho dele com uma colher!” Provando que macheza, como sinônimo de coragem, não tem sexo nem idade. Oigalê Vozinha!!!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Para nos Entender um Pouco

A primeira pergunta que sempre se faz para um gaúcho quando não agüenta mais ouvir ele discursar sobre as vantagens e maravilhas do Rio Grande é: “Mas afinal, por que você saiu de lá?!” Geralmente a resposta é dada em tom de deboche, com um certo ar de superioridade : “Por que onde tem muito gaúcho, ser gaúcho não é vantagem!!”
Brincadeiras à parte, esta afirmação tem um pouco de verdade. Calma, não me entenda mal, não quero dizer que somos super-homens de bota, bombacha e bigodão ou algo parecido, mas que o nosso querido estado está saturado de mão-de-obra especializada, com um mercado agressivo em que não basta competir, é preciso possuir um diferencial (palavra muito em moda por lá), algo que ainda não tenha sido pensado pelos concorrentes e que, ao ser usado, será certamente imitado por todos, deixando logo de ser novidade, abrindo espaço para que outra idéia inovadora seja criada, imitada, e assim por diante, num eterno canibalismo comercial.
Acha que eu estou exagerando? Tenta criar um negócio em Bagé! Inaugura uma loja em Porto alegre! Abre um escritório no Alegrete! É muito difícil entrar no mercado do Sul justamente por que lá tudo já foi feito ou inventado, que até criatividade e paciência têm limite.
Então a gauchada, para evitar ter de agarrar cliente à unha na rua e jogar para dentro da loja, se toca para o Norte, promessa de futuro, com um mercado absorvente, em que a peleia pelo consumidor ainda não é a tapa, podendo produzir, vender e crescer sem perder o sono. Com a vantagem também de aqui ter água de coco e tapioca, e a desvantagem de não ter lareira nem o Galpão Crioulo no domingo.
Outra coisa que me chamou a atenção foi o alto grau de “engauchamento” do pessoal do Sul por aqui. Parece que quanto mais longe o gaúcho fica de casa, mais gaúcho ele fica, mas tem gente que exagera: tem índio que nunca disse um “buenas” na vida e anda falando mais grosso que ronco de maverick, ouvindo Mano Lima e decorando os cortes da vaca para parecer que entende de churrasco.
Esta é uma das mais interessantes facetas do pessoal do pampa: o gaúcho é um baita sentimentalista! Embora nenhum goste de admitir para não ser confundido com, digamos, outra coisa (não me animo a escrever o termo para não levar uma sova), são todos pessoas com coração de ouro, que por trás da fachada de machaõ insensível escondem uma alma de poeta que se engasga por qualquer coisa. Duvida? Experimenta colocar uma música gaúcha dessas que falam do Rio Grande ou uma poesia do Jaime Caetano Braum e cuida se o vivente não fica com olhar meio parado, suspirando que nem gaita velha furada.
A verdade é que gaúcho não corta o cordão umbilical – ele estica – fica sempre ligado com a terrinha. O sonho de todo gaúcho é voltar para o Rio Grande, só que depois de um certo tempo, ele vai passar uns dias por lá e não acha o frio tão bom assim, congelando o nariz e as orelhas, acha falta da rede embaixo do pé de cajueiro, os parentes que moram lá fazem troça do sotaque “cantado” que ele sem perceber “pegou”, vai pescar e só tira traíra ou jundiá que, apesar de saborosos, não têm a majestade do dourado ou brigam bonito que nem o surubim, e quando o qüera se dá conta ele está sentindo falta de ver um pouco de floresta grande, de pescar no “Madeirão”, de ouvir algum amigo do norte soltando um “vixi!” de exclamação por qualquer coisa. E quando o gaúcho assustado percebe, está com saudades do Norte, que lá nem é tão quente assim, afinal já inventaram ar condicionado e suco de caju e que o forró é tão bom quanto uma vanera. Descobre, entre triste e conformado, que o Rio Grande dele mora nos seus sonhos e dentro do seu peito e só é bom visitá-lo no durante poucos dias por ano. No verão.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Tudo Era Tão Claro

Antes, tudo era mais fácil. Eu acordava, te beijava e ia para a forja. Ainda sinto o cheiro da madeira começando a queimar, do forno começando a aquecer, do pão com azeite comido junto ao fogo. Escolher o metal, aquecer, moldar. Eu era o deus forjador, criando obras para matar. Cada martelada era como um carinho bruto, um desejo de luta, um medo de te deixar.
Ah, como era simples! Eles eram os maus invasores e nós os bons e terríveis vingadores. Vieram de longe, andando por aí, roubando esperanças, vidas, alegrias. Não chegaram até nós, mas chegaram muito perto. Perto demais. E o ódio frio nos cegou quando vimos do que eram capazes. Não foram mal recebidos, de acordo com o nosso costume, mas mesmo assim fizeram tudo aquilo.
Eles não sabiam que preparávamos um revide. Eu era um dos que mais apoiava e estimulava os nossos. “Não podemos deixar que venham e vão impunes! Hoje são nossos vizinhos, amanhã serão nossos filhos!”. Doava todo o meu tempo para o preparo das armas, mas nunca deixei de te beijar, companheira, amada.
Havia três gerações que não lutávamos, e ficaríamos mais treze de bom grado, mas nos provocaram. Cada arma levava um pouco do meu ódio, filhas terríveis, frias, querendo se aquecer em corpos recheados de sangue quente, penetrar até o profundo negro do coração dos malditos e lá dentro gritar bem alto que este lugar é nosso e ninguém pode invadi-lo e sair vivo.
Lembro-me da última noite antes de sairmos atrás deles. Nossa fúria amorosa, desespero, meu cheiro em ti e teu cheiro em minha alma, com uma morte intensa, quase dolorida, eu chorei. Naquela época só tu podias me ver chorando. Não era medo, era saudade do que eu não havia perdido, do teu riso, teu olhar não-domado, desafiador; e de raiva da audácia deles em pensar que poderiam invadir nossas vidas e ficar por isso mesmo. Eles pagariam.
Beijos, gritos, piadas, todos mentindo, menos teu choro, que me dando adeus dizia que a batalha seria difícil, quase impossível voltar. Disfarcei minha dor com um largo sorriso e te disse que já voltaria, como se estivesse indo até o rio dar um banho no cavalo. Quase imediatamente após sairmos, todos mostraram a verdadeira face preocupada, discutindo como chegaríamos até eles. Quinze dias seguindo rastros, alguns difíceis, outros ensanguentadamente claros. Juntando homens indignados pelo caminho, formamos um grupo grande, foi quando percebi que estava liderando o grupo.
Todos me consultavam sobre quando comer, dormir, que lado seguir. Na época pensei que o nosso deus da guerra havia tomado meu corpo, hoje sei que era o entusiasmo da caçada e o desejo de terminar logo e voltar para ti.
Eles eram muitos, diziam nossos batedores. Nos aproximamos devagar, fazendo a volta pelas árvores, tremendo com o nervosismo da luta, sentindo o cheiro de morte próxima e rezando para que fosse da morte deles. Desci do meu cavalo, contra o conselho dos amigos (sou melhor no chão, disse a eles) e, a um sinal meu, caímos sobre eles como animais loucos. Dei o exemplo, fui à frente, atingindo tudo que se movesse, gritando como um demente.
Não me orgulho do que fizemos, mas até hoje meu coração salta do peito ao lembrar daquilo. Meu braço era forte, tu o sabes, mas impressionou aos que estavam perto quando desceu sobre um deles que vinha correndo contra mim e esmagou seu grito com o mesmo peso que forçava o metal a tomar forma na forja. Aquilo foi um incentivo para todos, que lutaram com tal fúria que mesmo os feridos eram como leões, quanto mais machucados, mais perigosos.
O som terrível do aço batendo contra aço-osso-carne! Um golpe defendido, um chute, uma cabeçada (sou bom nisso!), giro, grito, ataco de novo, outra morte vingada. Chuto com raiva, pelos amigos que não puderam se defender. Enlouqueço e todos junto comigo também. Devia estar terrível, desfigurado, pois me lembro das faces apavoradas dos inimigos e amigos ao me olharem. Não vi quando acabou, só queria matar mais e mais, deus faminto, rouco, sujo e ferido. Contaram-me que cinco dos nossos tiveram que me agarrar para arrancar-me de cima do corpo de um maldito que, já sem vida, era uma massa desfigurada por minhas mãos nuas. Dois dias depois voltei a mim, amarrado, dolorido e tonto de fome. Fui saudado por todos com um medo reverente. Daí surgiu a lenda de que o deus lutou por nós, bebendo todo o sangue do inimigo, gritando palavras de poder pelo campo de batalha, chorando de alegria e fúria por tomar vidas.
A volta para casa! Voltei para ti, amada! Amigos que não voltaram, mulheres sem homens para abraçar, a alegria de chorar estas tristezas nos teus braços! Longos anos demoramos naquele beijo, todos os dias renovado várias vezes, até que, um dia, me deixastes, minha luz. Filhos, netos, amigos, nada importava mais do que teu olhar (fantástico!), nunca totalmente domado, sempre com um tempero de afronta, somente serenado com um sorriso meu. Como meu sorriso te transformava! Sabias que eu compreendia tua natureza selvagem e bebias em minha calma o amor sereno, enquanto eu tomava emprestado de ti a força, e nos completávamos.
Não viveste para ver nosso povo começar a negociar com aqueles malditos. Tempos mudam, dizem todos. Hoje, ninguém presta atenção ao velho que vive à beira do fogo (só teu calor me aquecia), contando antigas histórias do que eles fizeram aos nossos. Alguns ainda respeitam a figura do líder do passado, fera sem garras, mas acham que eu minto, e às vezes, chego a pensar que estão certos, que nunca houve luta. Nos poucos dias de sol (como o sol brilhava contigo aqui!), saio e vejo os malditos andando orgulhosos por nossas ruas. Às vezes, visito algum velho amigo, fantasma branco do passado colorido, e ficamos a alimentar nossos desgostos à beira do fogo (é sempre frio agora), até não suportarmos mais nossa amargura com estes tempos, nossos filhos não são homens, nossas filhas prostitutas, nossa gente se entregou.
Volto para casa (teu jardim morreu), para o fogo, que já não aquece, para a comida sem gosto (que tempero usavas?). Até hoje, juro, tento te enlaçar pela cintura, dormindo. Acordo e fico sem sono (não me chamavas de dorminhoco?), sem lágrimas, relembro de nós até o amanhecer, mais um dia sem ti. Mas tenho uma idéia que me alenta: é menos um dia sem ti! Espero desesperadamente pelo teu beijo, abraço apertado, meu sorriso no brilho do teu olho – meu deus, o som da tua risada! Penso nisso e me perturbo, minha garganta aperta, me afasto de todos, choro e chamo baixinho:Vem me buscar, meu amor!!!

domingo, 8 de fevereiro de 2009

GENÉTICA

Estava na sala de espera do dentista, lendo uma revista de divulgação científica, quando me deparei com uma entrevista de um famoso geneticista dizendo, entre outras coisas, que o DNA do ser humano é setenta por cento idêntico ao de uma abóbora. Fiquei tão chocado que nem precisei de anestesia para o tratamento de canal. Com o rosto inchado, fui para casa mastigar o assunto, (não dava para morder nada mais sólido), preocupado.
Não dormi naquela noite. De manhã bem cedo corri até o Claus Pich, um trator amigo meu, faixa-preta em genética, e exigi uma retratação pelo desaforo do colega dele. O Claus não só não se retratou como confirmou a notícia e, na delicadeza que lhe é peculiar, me jogou porta afora, que aquela não era hora de acordar gente decente.
Meu Deus! Por que aquele cientista desgraçado nos comparou com uma abóbora? Por que ele não nos comparou com um macaco, um vírus ou, sei lá, um vendedor de seguros? Uma abóbora para mim é um ser amorfo, sem idéias, que abriu mão de virar árvore para ficar se bronzeando no chão, sem se preocupar com as formigas ou roedores, e paga o preço até hoje. É como o gordo que sempre fica para trás nos filmes de terror e é pego por não conseguir correr tão rápido quanto os outros (você nunca verá uma abóbora conseguir fugir de qualquer inimigo que seja). Uma criatura gulosa que preferiu não ter tronco para só criar barriga e que só não se extinguiu por que nós gostamos de cozinhá-la. Já pensou ter de depender de outra raça por que gostam de cozinhar você? E vem um cara desses e diz que eu tenho que chamar uma coisa dessas de prima!
Depois de engessar as costelas (o Claus não costuma abrir a porta antes de arremessar alguém por ela e geralmente erra o primeiro arremesso), fui pesquisar o assunto e descobri que não só partes de seqüências de genes são idênticas em todos os seres, como também a essência material, o cimento de que todos são feitos é o mesmo. Teoricamente, se pegarmos a célula de qualquer ser e a modificarmos um pouquinho, teremos outro ser diferente, até mesmo um humano, talvez até um corretor de seguros!
A Genética veio para dar o tiro de misericórdia no peito do “HOMEM, O ser-mais-evoluído-da-natureza”, que havia levado seu mais duro golpe do carrancudo Darwin, com aquela história do macaquinho nosso avô. Se o Darwin ficou com aquela cara por descobrir nosso parentesco com os primatas, imagina como ficaria se soubesse que somos quase cultiváveis em canteiros!
Debati com alguns amigos sobre o assunto e o Fernando me sugeriu uma teoria interessante: que a transformação já existe e que tem gente solta na rua que não descende de outro ser humano, mas de certos tipos de legumes ou animais exóticos. Por que só o fato de existir Engenharia Genética justificaria a existência de alguns seres, como os fabricantes de espanadores ou os estudantes de psicologia. Já pensou descobrir que o seu chefe foi produzido a partir de uma célula do nariz de uma anta? Ou que a mulher do seu vizinho é um quiabo que virou um pé de couve e, mesmo assim, ele casou com aquilo?
A repercussão na nossa vida seria terrível, com problemas psicológicos irreversíveis do tipo ”Complexo de Édipo – Categoria: batata” - como impedir o cara de comer o equivalente à sua mãe no almoço?
Definitivamente, preferiria viver no tempo em que a terra era chata e centro do universo, tratamento médico era na base da sangria e vomitório, que só não matava por pura sorte, e se alguém dissesse “tua mãe é uma vaca”, estaria se referindo ao caráter e não à forma original da genitora.
Não sei para onde este mundo vai, mas acho que não quero ir para lá. Agora, toda vez que digo algo, caio numa gargalhada histérica. Quando me olhei ontem no espelho, estava com o olhar parado, vazio e com uma cor esverdeada na pele. Ou confundi o espelho com a foto de uma abóbora.

Curso

Apresentamos agora o mais inovador curso da atualidade: o SPG!

O que é o SPG?
É uma revolucionária forma de, sucintamente falando, não dizer absolutamente nada no máximo de palavras possíveis e ainda convencer sua platéia!
O que significa a sigla SPG?
É a sigla criada pela Pombo&Taube Corporation para “Saltos, Pulos & Gambetas”, simbolizando o ato de desviar de assuntos desconhecidos ou indesejáveis. É a fantástica síntese de atitudes do enrolador moderno. Sua fórmula consiste basicamente de conhecimentos adquiridos através das mais variadas situações de tensão, nas quais se espera que o narrador fale algo significativo, embora este não faça a menor idéia do assunto em questão. É aí que entra o SPG, dando suporte para um discurso extenso, variado, profundo e até emocionado, sobre algo vagamente compreensível, deixando a platéia com aquela sensação de que se está falando algo muito importante, mas que aquilo escapa de sua compreensão.
O SPG não deve ser confundido com jogo de cintura, ou qualquer expressão que traduza o talento de organizar situações embaraçosas. O SPG não organiza nada, só complica. Inclusive, uma das suas maiores características é criar uma confusão mental tão grande no interlocutor que o impeça de pensar com clareza, impossibilitando-o de esclarecer qualquer ponto obscuro da conversa. O principal objetivo é salvar a situação do ridículo, virando o jogo com apenas pura conversa fiada.
Executivos de ressaca que esquecem do conteúdo da palestra que irão apresentar, maridos que passaram uma semana fora de casa e retornam vestindo fantasia de legionário romano, empregados pegos em situações escandalosas na frente de um computador ou atrás dele, candidatos a colunista de jornal que pretendem escrever algo que convença de que possuem talento, todas estas pessoas estariam em maus lençóis não fosse o nosso curso.

O SPG através dos TEMPOS:
A História confirma que técnicas rudimentares, semelhantes ao SPG, foram largamente utilizadas através dos tempos, quase sempre safando os seus usuários. Fala-se que Ounfh, um homem neolítico, foi o primeiro a utilizar o SPG primitivo, convencendo, com um tagarelar desenfreado, um mamute enfurecido de que ele (o mamute) era uma lebre com mania de grandeza, que era para parar já com aquele exibicionismo todo, ora onde já se viu! Diz a lenda que o mamute ficou tão impressionado com a eloqüência de Ounfh, que nunca mais incomodou um humano, embora fosse visto perseguindo jovens lebres apavoradas para fins desconhecidos.
Também está registrada a existência de Uksunxputz (também conhecido por Uuu, ksnxptz ou ainda, 3U), um andarilho do deserto, que praticava seu poder de convencimento com as plantas raquíticas da região, persuadindo-as a lhe fornecerem frutas que não produziam.
Certa vez, 3U estava vendendo maçãs e melancias no mercado da cidade de Dafca, quando teve a idéia de aplicar suas técnicas de persuasão com humanos. O resultado foi catastrófico para a população que, hipnotizada pela verborréia, baniu o rei e elegeu 3U como soberano de toda região. Sem nunca parar de falar, convenceu a todos os homens de posses que lhe doassem suas riquezas (camelos, vinho e mulheres com quadris largos) e ainda raspassem a metade direita do bigode e a sobrancelha esquerda o que, parece, fazia 3U rolar de rir.
Um dia, entretanto, 3U sofreu do único mal que um enrolão jamais pode ter: ficou sem voz. Ao se aperceberem do ridículo que estavam passando, a população enfurecida invadiu o palácio sem precisar arrombar os portões: atravessou o muro e a parede, aprisionou e condenou 3U ao mais terrível castigo da Época: a Lapidação por Cegos™, em que o sujeito ficava encarcerado em um grande pátio com um peso atado aos pés junto com doze cegos que, ao soar da trombeta cerimonial, começavam a atirar pedras para todos os lados. Ao acertar o condenado, este invariavelmente daria um “Ai!” de dor, denunciando sua posição ao grupo, tendo assim uma das mais lentas e dolorosas mortes. Caso não houvesse cegos em número mínimo legal, cegava-se algum escravo, ou mudava-se a lei, o que estivesse mais à mão. A falta de voz de 3U só aumentou seu suplício, fazendo com que os cegos errassem muito do alvo, demorando sete dias para terminarem sua missão. A cidade de Dafca tomou uma resolução drástica: nunca mais negociou com gente do deserto que vendesse melões.
Os romanos citam o perigo do uso da “Multiplae Maldita Verba” que, segundo o historiador Tito, o Pederasta (séc. II a.C., com ilustrações do Laerte e introdução do Veríssimo), nunca foi utilizada pelo Império por que “Se somos assim sem ela - por Júpiter! - imagine usando-a! Se Roma conquistou tudo com o braço, o que não faria com a língua?!”.
Legada ao esquecimento, a prática só apareceu novamente no séc. XII, com a figura de Elesbão de Lábia, um cruzado que encontrou nas ruínas de um antigo templo semita em Jerusalém, o manuscrito intitulado “A Empulhação de Levi Sharon, aquele safado!” revelando todos os segredos do “pecado de sacanear o próximo”. Rapidamente pondo em prática aquilo que descobrira, Elesbão virou rei de Jerusalém por três semanas, quando foi pego vestindo, talvez por engano, uma armadura que já continha um soldado dentro. O fato foi muito mal-visto por todos e nem toda a fala do mundo convenceu os irmãos em armas de Elesbão a dormirem no mesmo palácio que ele. Elesbão retirou-se de cena rapidamente, levando consigo o soldado da armadura (estranhamente, Tito, o Pederasta).
Elesbão não consta na lista histórica de reis de Jerusalém, mas existe um documento que cita uma mal-afamada rainha barbuda, “Bona, a Brevíssima”, contemporânea do infeliz cruzado, possivelmente sua esposa, o que eu duvido.
Já no séc. XX, durante a 2a Guerra Mundial, o alto comando nazista pesquisou o controle das massas através da fala, incluindo, por exemplo, o estudo sobre um bem sucedido vendedor de fraldas descartáveis, Hermann Spretzgrossashloh, conhecido como Hermann, o tratante, mas a pesquisa foi interrompida quando se descobriu que a fralda descartável ainda não havia sido inventada.
Foi um soldado americano, Billy Johny Smith, também conhecido como “Metralhadora Johny”, “Vitrola Smith” ou ainda, “Billy Papagaio-de-Puta”, quem realmente fez sucesso com o que ele chamava de “Bullshit”. Vendeu, através das linhas inimigas, para os soldados alemães “chicletes americanos modernos”, para pôr no ouvido que, segundo ele, em duas horas começava a se sentir o sabor pelas orelhas. Não se sabe quais foram os argumentos de Smith, mas um pelotão nazista inteiro caiu nessa, sendo totalmente dizimado pelos aliados em minutos sem entender nem ouvir nada. Smith tornou-se um dos maiores responsáveis pela conquista do pequeno vilarejo de Gross Valhalla, rota principal do pão-de-ló que Hitler adorava, causando uma crise no Alto Comando.
É claro que estes métodos são muito rudimentares em relação ao moderno SPG, em que foram adicionados conceitos de Física, Fonoaudiologia, Expressão Corporal, Balé e Capoeira, tornando o spgista um técnico altamente capacitado em desviar literalmente de tudo que desejar.
Alguns tipos de SPG:
Na modalidade militar (cód.1964), por exemplo, a prova final consiste em ser colocado em um poço profundo e estreito, no qual se joga uma granada sem o pino, com o candidato a spgista tendo quatro segundos para convencer a granada a não atingi-lo com os estilhaços ou (no caso dela não querer conversa), desviar de todos os pedaços arremessados com a explosão. O diploma "cum Laurea” é concedido àquele que conseguir confundir tanto a granada a ponto dela não lembrar como é que se explode. Curiosamente, este é o curso de SPG menos procurado, sendo preferido o SPG Espiritual (cód.666), em que o aluno aprende a provocar alterações na percepção dos que estão próximos, causando-lhes súbitas revelações, como visões, êxtases e transferências de fundos para a conta do spgista.
O mais comum, entretanto, é o módulo básico (cód.171), em que o cursando no final deverá estar apto a, entre outras coisas, convencer a esposa de que o fato de estar só de meias com a secretária na sala de reuniões faz parte de uma nova forma de confraternização da empresa; explicar gráficos* dos quais não faz a menor idéia; obrigar seu chefe a assumir em público, no próximo jantar da firma, que adora colecionar fotos do Pedro Malan, etc.
*Obs.: Todos os nossos gráficos informativos são distribuídos gratuitamente ao final do curso e já vêm na escala Pombo, que vai de zero a algo (ou a lugar algum), e se adaptam perfeitamente a qualquer explicação.
Também muito interessante é o curso especial (cód.007), no qual se aprendem as mais sofisticadas formas de tumultuar o raciocínio alheio, como a de oscilar lentamente o corpo numa freqüência que causa sonolência e a estranha sensação de que o narrador está ficando translúcido, fora de foco e com a voz do Darth Vader.
Todos os nossos módulos incluem aulas com o professor Cambota, de Expressão Corporal e Fisiologia, mestre e doutorando em ataque epilético e cardíaco, para a improvável hipótese do spgista não convencer com argumentos e poder sair de cena com um pouco de dignidade.
Caso você não fique satisfeito após o final do curso, nós lhe garantimos a devolução de todo o seu tempo!

Confira outros cursos e palestras ministradas este mês pela Pombo&Taube Corporation:
- “Fugas e escapadas” com o mestre ninja Tetsuo Tofora;
- “Como ganhar dinheiro dando palestras inúteis” com os professores Limberger e Avancini, PhDs em SPG;
- “Auto-felatio™: Masturbação ou Homossexualismo?” com Titi Calígula dos Santos, psicoterapeuta e contorcionista.

Obs. A lapidação por cegos™ e o Auto-felatio™ são marcas registradas da Pombo&Taube Corporation, sendo expressamente proibida a prática, divulgação, tentativa, e/ou demonstração pública sem que um representante da empresa esteja presente para filmar tudo e rolar no chão de tanto dar risada.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

EU SOBRE EU/MIM MESMO ou APRESENTAÇÕES

Pré scriptum: este texto foi criado quando ainda morava em Porto Velho, Rondônia, antes de trocar a faculdade de Direito pela de Administração e de me apaixonar por uma mulher 27 anos mais jovem - a Camilinha - nossa filha.


Nasci em Bagé em 1978 no dia 30 de dezembro (sob o signo de complicórnio com ascendente em capivara), devoto de São Luis Fernando Veríssimo, amém. Passeei um pouco em São Sepé, morei algum tempo em Porto Alegre e deveria ir morar no Rio de Janeiro, mas algo deu errado no caminho e eu vim parar em Porto Velho. Acho que a Simone (meu co-piloto e esposa nas horas vagas) se atrapalhou com o mapa e nós dobramos errado em alguns cruzamentos, ou ela fez a coisa de propósito, o que eu desconfio. (Confesso que adorei o erro!)
Sempre fui um guri leitor, desses que ficam na biblioteca na hora do recreio em vez de ir correr atrás de uma bola. Aliás, quero aqui responsabilizar publicamente o Veríssimo por não permitir que eu me tornasse um rico e famoso jogador de futebol. Ou um mero jogador de qualquer coisa, já que, depois que fui apresentado a um livro dele (um “Ed Mort” da minha mãe, aos nove ou dez anos de idade), só queria saber de ler e não achava tempo para subir em telhado, brigar na rua, fazer atrocidades com animais, enfim, ter uma infância normal.
Eu precisava escolher alguma carreira em que pudesse utilizar toda aquela ironia e humor fantásticos, aquele deboche discreto, que faz a gente gargalhar por dentro, por isto escolhi o Direito.
Antes de me formar, fiz o Curso de Mestrado em SPG (saltos, pulos e gambetas), nos churrascos (Muh!) da turma lá no pátio da casa da minha mãe, atingindo vinte e cinco graus na escala Pombo (que vai de zero a algo), com a carga alcoólica de três horas-cerveja por semana. Sou também um grande fã do texto leve e informal do David Coimbra; da crítica cáustica e deliciosa do Diogo Mainardi, do humor debochado e non-sense do Wood Allen e das baladas sangrentas do “Tequila Baby” (Yeah!!), por isto, já aviso que se alguém achar que o meu texto é influenciado por alguém desta turma, vai me deixar o cara mais feliz do 3º mundo, que do planeta deve ser o dono da Playboy!
Abraços e boa leitura!

terça-feira, 27 de janeiro de 2009